Quando penso na minha infância, vejo que ela pode ser considerada muito boa, quando comparada com a média geral da população, no que se refere aos fatores de condições de vida. Nasci numa família de classe média, nunca passei por experiências de privação, estudei sempre nas melhores escolas particulares e não tive tragédias na infância, como perder um pai, presenciar cenas de violência, sofrer algum acidente grave, ser fisicamente abusado ou conviver com alguma doença crônica na família, como o alcoolismo.
No entanto, sofri traumas emocionais que hoje sei que são determinantes para a minha vida e minhas escolhas. Minha infância foi marcada pela sensação de não ser enxergado pelos meus pais. Eles trabalhavam muito, provavelmente tentando ganhar dinheiro para dar uma vida melhor para nossa família, e quando chegavam em casa, estavam cansados. Eles queriam descansar, e eu queria a atenção deles, no entanto, era penoso tentar conseguir essa atenção, porque eles visivelmente não tinham muita energia a oferecer e pareciam sempre estar ocupados com outras coisas que eu pensava que eram mais importantes do que o que eu precisava. A percepção de que eles esqueciam frequentemente da minha presença na casa e na vida deles era comum, e isso se acentuava quando eu assistia brigas entre eles. Engolia o choro e sentia uma dor no peito quando me sentia esquecido. Minha mãe tem um caráter bastante impulsivo e quando ela ficava brava por algum motivo, eu já sabia o bem o que esperar de sua reação. Ela tinha rompantes de ira em que xingava tudo e todos que estivessem em volta. Uma situação simples era um gatilho que estourava o barril de pólvora. Ela gritava muito e seu olhar me dava medo, pois eu não sabia exatamente qual era o seu limite. Para mim era constante o medo de que ela perdesse a cabeça nesses rompantes de raiva, que quase sempre aconteciam durante sua TPM. Meu pai é uma pessoa extremamente paciente. É tolerante e costuma aguentar grandes tormentos calado. Na maioria das vezes em que ele estava presente nos ataques de raiva da minha mãe, ele nada fazia. Olhava como se aquilo fosse comum, como quem espera que um dia isso se resolvesse por si só, o máximo que ouvia ele dizer era chamar minha mãe de “neurótica”. Neurose, uma das palavras que eu mais escuto na minha formação em psicologia. Ele não tinha o mesmo medo que eu, afinal, a minha posição de criança era mais frágil do que a dele de marido. Ele não tinha medo da tirania da minha mãe, por não estar subordinado a ela como eu estava. Um profundo sentimento de culpa me acompanhava, sempre que acontecia alguma dessas situações caóticas na minha família. Eu sempre achei que o desamor que eu presenciava entre meus pais era culpa minha, não me perguntem porque. Hoje sei que aquela sensação de agonia que me dava era culpa, mas na época, era algo que não conseguia nomear. Me doía ver que meus pais não trocavam carinhos, palavras de amor ou atos que estimulassem o amor entre eles. Me doía mais ainda presenciar cenas de ódio e raiva em que um xingava e culpava o outro na frente de todos os filhos, sem cerimônia, como se nós tivéssemos condições de assistir aquilo. Com o passar dos anos, fui me acostumando a essa dinâmica. Dizem que o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível e essa é tanto a sua melhor característica, quanto a pior, porque nós nos adaptamos a tudo, inclusive ao sofrimento, para continuarmos vivos.
Com o tempo a minha reação de defesa a essa dinâmica foi criar a ideia de que não precisava dos meus pais para viver. Eu não poderia contar com eles, não poderia dar trabalho, mostrar minhas fraquezas, pedir algo, nada, afinal eles não viam minhas necessidades, não percebiam como tudo aquilo me afetava. Tudo o que eu tinha que fazer era mostrar a face da perfeição, dar o mínimo de trabalho possível e tentar curá-los de alguma forma. Eu sentia que podia fazer isso, não só que podia, como era meu dever tentar resolver esse problema.
Com tudo o que eu tive que passar durante o tratamento, precisei muito dos meus pais. Para tudo, para ficar comigo no hospital, me ajudar a levantar quando precisava, para ir aos médicos, enfim, eu estava em uma posição em que não era possível abdicar da ajuda deles. Felizmente pude contar com a ajuda de ambos, para várias coisas. Minha mãe ficava mais próxima, por ter mais tempo livre, e esteve comigo nas duas cirurgias. Tanto na quimio quanto na segunda cirurgia, eu xingava bastante a minha mãe. Nos momentos em que eu estava irritado não pensava duas vezes antes de descarregar a minha raiva nela. Ela recebia com simplicidade meus xingamentos e não dava nenhuma resposta que me provocasse. Sempre tentava ver o que era pra ela fazer para eu não ficar irritado. Enquanto a xingava, me sentia vivo e cheio de energia, como se tivesse o direito de ser estúpido e grosso com ela. Esse “troco” que eu dava a ela não foi a solução para a minha dor infantil, mas uma reação de desespero da minha parte.
Meu pai participou mais de longe do tratamento, pela sua própria característica mais distante e por trabalhar na maior parte do tempo. Mas sempre que eu precisava de algo, ir na farmácia, me levar na quimio, ele prontamente fazia, com vontade, sem reclamar nem uma única vez. No entanto meu pai nunca foi alvo das minhas descargas de raiva. Durante o tratamento, meu pai chorou às escondidas pela minha condição. Minha mãe eu sei que perdeu várias noites de sono. Tanto meu pai quanto minha mãe tem dificuldades imensas em lidar com o meu câncer. Eles mal conseguem pronunciar essa palavra. Procuram sempre outros termos, mas quando calham em dizer “câncer”, dizem em um tom mais baixo, como se tivessem medo da palavra. Não os culpo, afinal, meus dois avôs morreram de câncer quando tinham entre 40 e 50 anos.
O tratamento acabou e fui me dando conta de como a minha relação com eles havia sido transformada. Eles me testemunharam no meu momento de maior vulnerabilidade. Aos poucos percebi que eu não tinha e não tenho nada a ver com as brigas que presenciei durante boa parte da minha vida. Hoje, se meus pais quiserem se amar ou se odiar, o problema é deles, porque para mim, eles serão sempre aquele casal que, morrendo de tesão um pelo outro, um dia resolveram se amar, e dessa união, eu vim ao mundo.
Pai, Mãe, tenho muito orgulho de vocês. Vocês já cumpriram a missão de pai e mãe comigo. Já me ensinaram como viver e como não viver. Cuidaram da minha sobrevivência e se esforçaram para que eu tivesse a melhor vida que vocês poderiam dar. É um privilégio ter vocês vivos comigo, e enquanto a vida permitir, isso será muito bom. Levarei para sempre dentro de mim o amor de vocês, e jamais poderei retribuir o que vocês fizeram, apenas me curvar e agradecer. Amo vocês, obrigado.

meu filho teve, e gostaria de saber como vc esta hoje, o dele estamos tratando
ResponderExcluirOlá Gioconda! Estou muito bem, em dezembro agora fará 2 anos que recebi o diagnóstico. Faço exames de tempos em tempos para ver se a doença voltou, até hoje nunca voltou. Se quiser conversar mais me adicione no facebook ou mande email leomf.hot@gmail.com e facebook Leonardo Moura Freitas
ExcluirLindo, Leo! Emocionei na parte que você conta os acessos de raiva com a sua mãe...
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