quinta-feira, 13 de setembro de 2012

7. Amigos deixam a vida mais leve

Descobri o câncer assim que entrei de férias. Estava longe de todos os meus amigos. Dei a notícia pela internet. Não sei como cada um deles reagiu. Quando terminei a primeira quimio, vim para Ribeirão resolver como ficaria a faculdade nesse tempo de tratamento. Encontrei meus amigos. A maioria deles não soube bem o que me dizer. Se eu tivesse no lugar deles, também não saberia. Eles tem medo de fazer as perguntas erradas. Quando se tem câncer as pessoas acham que se elas falarem uma palavra errada você pode se desmantelar na frente dela. Isso não é verdade. Meus amigos não conseguiram falar direito comigo. Alguns davam mensagens de que estavam torcendo pelo melhor, enquanto outros queriam me convencer de que tudo passaria logo. A verdade é que nessas horas o clima ficava pesado, porque estávamos diante da dor nua e crua. Como encarar seu amigo de 21 anos careca e abatido que está tendo um vislumbre do que é a morte? Ter câncer jovem é mostrar para seus amigos que talvez a morte não esteja tão distante assim.
Chegando em Ribeirão, me deparei uma grande surpresa. Mas antes preciso explicar algo. Esse sou eu e esse é o meu óculos branco. 

Quando cheguei na faculdade esse óculos se tornou a minha marca registrada. Na verdade suspeito de que a maioria das pessoas me achava um pouco ridículo por usar um óculos branco. E acabei tendo a confirmação dessa suspeita quando ganhamos intimidade e começaram a falar na minha cara que de fato, eu era ridículo com o óculos branco. Alguns amigos mais bondosos diziam: “Ah cara, assim, eu não usaria esse óculos, mas é que em você fica bom sabe... ou talvez a gente já tenha se acostumado.”. Bom, essa é a história do óculos. Cheguei em casa, e logo chegaram todos de surpresa, cada um com um óculos branco parecido com o meu. 

Eles tinham feito um vídeo que traçava bons pedaços da nossa vida universitária. Foi emocionante receber esse presente nessa hora em que eu estava tão detonado. Na época eu estava no olho do furacão e não soube dizer nada diante do presente, só falar que estava sem palavras. Sei que todos eles se colocaram um pouco na minha pele com esse gesto de comprar um óculos branco e fazer o vídeo, disseram sem palavras que estavam comigo. Para vocês, tenho um poema:


Pode ser que um dia deixemos de nos falar...

Mas, enquanto houver amizade,

Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

2 comentários:

  1. obrigada Leo,

    a leitura destas últimas postagens me conduziu por uma meditação da qual saio confortada e segura de que conhecer você e todos esses novos amigos é o maior presente que recebi da vida desde há muito tempo!
    bjão!
    Simonetta

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  2. Estou passando por isso também como tar voce hoje

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