sábado, 15 de setembro de 2012
5. Minha vida já valeu a pena
Quando eu estava fazendo quimio, ia frequentemente ao hospital e aos consultórios médicos. Encontrei outras pessoas em tratamento e vi muitos casos de câncer, quase sempre com prognósticos piores e tratamentos mais longos que o meu. Eu pensava na infinidade de doenças e acidentes que podiam me acontecer a qualquer momento, e em como a vida se desfaz em alguns segundos. Então eu refletia sobre a sucessão de eventos que se passou até que eu chegasse vivo onde estou. Por quantas vezes minha vida esteve ameaçada e eu nem soube? De quantos acidentes eu me livrei, talvez por ter saído dois minutos mais cedo de casa, e eu nunca vou saber? Como eu cheguei até aqui vivo? Para fazer quimioterapia, eu entrava na ala da oncologia do hospital, passando em frente a quartos de pessoas que estavam internadas, seja para fazer a quimio, seja por estarem em tratamento paliativo. Eu olhava aquelas pessoas, magras, fracas, com apenas um fio de vida no olhar. Era difícil encarar aquilo. E então eu pensava: “Será que vale a pena mesmo viver? Vale a pena encarar a infinidade de perigos que a vida coloca? A vida não é segura.”. Minha conclusão depois de alguns meses: estar vivo é um milagre. Aos poucos, percebi que eu acreditava em uma série de ilusões, que eu nem sei como e porque aprendi. De onde eu tirei a ideia de que eu era especial e de que a mão do destino jamais seria pesada comigo? Quando me ensinaram que coisas ruins só acontecem com os outros? Felizmente essas ilusões se desfizeram, a cada vez que eu chorava, era um pouco delas que ia embora. É mais leve viver sem elas, hoje eu vejo a vida com um frescor muito diferente. Tudo pode acontecer. O risco é constante e é nesse fluxo que eu existo. Não existe segurança perante a existência. Só me resta me curvar diante do meu próprio destino, mais nada. Existem coisas que são muito maiores do que eu. Com isso eu compreendi que eu já recebi muito da vida. Viver esses 22 anos já fez minha vida valer a pena. Se eu morresse hoje, morreria com o gratidão por ter experimentado um pouco da vida. Essa sensação, de gratidão pela vida que eu recebi é o maior presente que o câncer me deixou. Ter meu coração preenchido de alegria por estar vivo é algo real para mim. Aos poucos, fico cada vez mais longe daqueles dias sombrios, e quando olho para trás, vejo um vale escuro que fez parte da minha viagem. Eu nunca mais serei o mesmo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Acho que é sempre muito difícil colocar as coisas pra fora, chorar parece ser o ato físico disso, ajuda muito.
ResponderExcluirEu nunca te vi chorando, nem te imagino chorando. A única vez que te encontrei durante o tratamento achei que você estava bem.