segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Depoimento IV Jornada de Oncologia da EERP-USP



Hoje faz 11 meses e 8 dias que fui diagnosticado com câncer no testículo. As lembranças ainda são vivas na minha memória: uma angústia profunda me consumia enquanto eu olhava meus exames na sala de espera do consultório do meu urologista. O que o médico iria dizer? Depois de muito esperar, finalmente chegou a hora da minha consulta. Naquele dia, o céu estava nublado e tinha chovido um pouco. Era uma sexta feira cinzenta. Depois de 1 mês e meio com dor no testículo, o médico começou a desconfiar de algo mais sério do que a suspeita inicial de uma simples infecção. Me sentei, entreguei os exames para o médico. Ele perguntou o que eu estava sentindo, olhou meu exames e, com muita calma, me disse que havia conversado com outros médicos de sua equipe, e que o que eu tinha mesmo era um tumor no testículo que precisaria ser operado. Enquanto ele falava, sentia meu ser despedaçado, afundando em um abismo escuro, gelado e solitário. Coloquei a mão na frente do rosto e chorei de desespero. O médico me fitava com um ar de compaixão. Ficou me olhando enquanto eu chorava, e depois contou as boas notícias para mim: “Olha Leonardo, hoje em dia se cura praticamente todos os casos de câncer no testículo, e olha, essa cirurgia não vai trazer nenhum problema na sua vida, porque o outro testículo compensa a falta deste que nós vamos ter que tirar, e daqui a alguns meses a gente coloca uma prótese aí, e não vai dá nem pra perceber qual lado que foi afetado. É fazer essa cirurgia te encaminho pra um oncologista e daqui a um mês deve tá tudo acabado.”. Este cenário foi uma doce ilusão que durou alguns dias da minha vida. Feita a cirurgia, descobriram que além do tumor primário no testículo, eu já estava com três outros tumores abdominais, de 3 centímetros cada. Isso mudava bastante as minhas perspectivas. O tratamento que antes duraria um mês, duraria agora de três a quatro, com a possibilidade da quimio não dar certo. Eu precisava fazer 3 sessões de quimioterapia e refazer exames, para ver se os tumores abdominais haviam sido destruídos. Caso os exames continuassem acusando a presença de tumores, seria necessário uma outra cirurgia, com 40% de chances de ficar sexualmente impotente.
Quando eu recebi o diagnóstico e comecei a maratona de ir em médicos para ouvir opiniões sobre o meu caso, minha vida entrou em suspensão. Minha rotina se alterou e cada dia era um novo passo em uma viagem que eu não queria fazer, mas que era necessária. Minha liberdade de ir e vir foi arrancada de mim, e agora quem ditava o que eu iria fazer ou não eram os médicos. Isso é extremamente frustrante. De repente a minha faculdade, os meu estágios, meus projetos, entraram em segundo plano. As prioridades se inverteram e tudo o que estava ao meu alcance para fazer era esperar e ter paciência. Não tinha com quem brigar ou com quem reclamar, afinal, quem eu culparia? E se eu achasse um culpado, isso mudaria em alguma coisa minha situação? Eu não tinha a menor ideia do que eu iria passar. Uma série de pensamentos invadiam a minha cabeça, mas o que mais me atormentava era que se a quimioterapia não funcionasse eu teria que passar por uma maldita cirurgia que poderia me deixar impotente.
Entendam uma coisa: quando se tem câncer, as fichas vão caindo aos poucos. A primeira cai no dia do diagnóstico, quando se recebe a notícia. Mas a cada evento, cada fase do tratamento, mais fichas vão caindo. No dia da primeira cirurgia, mais uma briga entre a negação e a aceitação da realidade do câncer acontece. Depois, quando se vai para a quimioterapia, é mais um outro processo de aceitação. De repente eu me vi com uma companhia que chegou sem ser convidada e que ficaria para o resto da minha vida presente dentro de mim. E eu ainda me pergunto, será que vai se passar algum dia em que eu não lembre que tive câncer?
Uma questão que se repetiu várias vezes dentro de mim durante todo o percurso do tratamento foi: “Por que comigo?”. Se 1 em cada 270 homens tem esse tipo de câncer, porque comigo? Por que não com o vizinho? Por que não com um amigo distante? Por que dessa vez a coisa ruim era comigo? O que eu fiz para merecer? Uma voz gritava dentro de mim, com muita raiva, e eco desse grito reverberava dentro de mim, encontrando o mais puro silêncio. Eu não tinha resposta. Eu pensava em criminosos, pessoas que deliberadamente fazem algum tipo de mal a outro ser humano, e me perguntava, por que não com ele? Por que não com um maldito político ladrão de Brasília? O que eu fiz de errado para merecer isso? Mas a natureza não tem moralidade de espécie alguma. Ela é indiferente aos meus valores, à minha raiva e ao meu sofrimento. Perante a natureza, eu sou só mais um corpo se mexendo, lutando para sobreviver nesse planeta. A existência não tem nenhum apego à minha vida e nem me considera especial. Algum ponto obscuro em mim acreditava que se eu fosse “bom” nos termos da moral humana, tragédias jamais aconteceriam comigo, só com os outros. Algumas pessoas arriscaram me dar uma resposta de porque eu tive câncer, e aqui vão algumas respostas, que vão desde explicações religiosas até as razões biomédicas. 1) Porque você é uma pessoa muito especial. 2) Deus te deu essa doença porque sabe que você é forte para aguentar. 3) Na verdade você “recebeu” essa doença que era para cair em outra pessoa, mas você é muito bom e resolveu colocar essa cruz sobre os teus ombros, para aliviar um irmão. 4) Porque eu andei muito de bicicleta ao longo de minha vida. 5) Porque eu nasci numa cidade que tem níveis de radiação acima da média. 6) Porque eu fiz um grande mal em uma vida passada e agora resolvi pagar essa dívida com uma doença. 7) Porque eu guardei rancores em relação ao meu pai. 8) Por uma infelicidade do destino. 9) Porque por azar eu sofri uma mutação genética aleatória que gerou o câncer. Estas são só algumas, mas eu poderia listar uma infinidade de explicações sobre o porque eu tive câncer, e eu garanto a vocês, elas não servem para nada, a não ser para me distrair da minha real dor. Uma coisa só tem mais de uma explicação quando nenhuma delas é verdadeira. Nenhuma explicação foi capaz de aplacar a revolta contra a vida que o diagnóstico de câncer suscitou em mim. Não existe explicação, só existe aceitação, porque as coisas são como são, se fossem pra ser diferente, seriam de outro modo. Depois de brigar muito com a vida, minha alma se rendeu e aceitei o câncer como parte de mim. Percebi que eu não tinha outra opção, a não ser me render. O câncer estilhaçou o que a minha mente construiu de ilusório em 21 anos de vida. Minha vida como eu a conhecia estava acabada. Meu coração se acalmou e minha alma se dobrou diante do meu destino que é bem maior do que eu. Eu não tenho domínio total sobre minha vida. Aliás a vida nem é minha, mas a vida vive através de mim. O problema é que enquanto eu brigava com a vida, eu me iludia achando que era onipotente diante da dela. Posso fazer algumas escolhas que influenciarão meu futuro, mas existe um passado infinitamente maior do que eu que me determina e diante dele eu só posso me curvar e aceitar que sou parte desse todo maior. Ainda que ele me traga sofrimentos e desgraças de vez em quando, esse é o mar que eu tenho para nadar.  
Cinco dias depois do diagnóstico, eu estava na mesa de cirurgia. Até se chegar ao centro cirúrgico, passei por muitos enfermeiros e cada um deles me perguntava do que eu iria ser operado. “Câncer no testículo”, eu falava. Hoje já me acostumei, mas durante o tratamento, eu me assustava de ver a expressão das pessoas quando ouviam que eu tinha câncer. Câncer é uma palavra mágica, basta abrir a boca para dizer que eu vejo uma expressão de pavor estampada no rosto das pessoas, ao mesmo tempo em que elas tentam esconder esse medo e fingir para você que está tudo bem. A verdade é que para os outros eu havia me tornado “o portador do mal”. A minha doença aborrece vocês. O rosto abatido, a cabeça careca e as cicatrizes espalhadas pelo corpo de alguém que tem câncer mostram uma face dura da vida, que gostaríamos de não ver. Aprendi duras lições sobre a vida e a morte, e agora quero contar para vocês algumas delas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

1. A vida é extremamente frágil

Não importa quantas vezes você ouça ou leia frases que tenham o mesmo sentido que essa que eu acabei de dizer. Mesmo que você tenha perdido alguém querido ou trabalhe com pessoas no limiar entre a vida e a morte, você não pode saber isso no nível que uma pessoa que está com a vida sob ameaça sabe. A experiência de perceber que o seu próprio corpo tem um problema e que isso pode dar fim à sua vida é estarrecedora. Foi uma sensação que tocou as raízes da minha existência, escancarou a minha própria finitude e colocou por terra a minha ilusão de ser poderoso e imortal. Palavras não serviam de nada, a única coisa que restava era o silêncio diante da minha condição de ser humano, feito de carne, efêmero, mortal. Reinava um silêncio que vinha do fundo da minha alma e um choro convulsivo tomava conta de mim. Um choro que abria meu coração e aliviava a dor que eu sentia. Mas a morte é provavelmente a melhor invenção da vida porque no meio de tanta dor, eu tive percepções a respeito da natureza da vida e sobre a condição de ser humano, percepções que hoje são os meus mais preciosos tesouros. Nós preferimos não olhar para a nossa condição mortal. Só se enxerga mesmo quando é o seu corpo que está na jogada, quando é com você a ameaça. Neste momento, quando eu me dei conta de que era comigo, eu tive a profunda compreensão de que a vida é apenas por um instante e que eu não tinha todo o tempo do mundo para viver.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

2. O ser humano é um ser solitário

Quando eu já estava dentro da sala onde seria a minha primeira cirurgia, fiquei um bom tempo esperando os médicos chegarem. Olhava o teto e tive uma estranha sensação. Tudo aquilo era um procedimento comum para os profissionais que estavam ali. É um extremo paradoxo, pois ao mesmo tempo que eu estava aterrorizado pela situação de me anestesiarem e me tirarem um testículo, para os médicos e enfermeiras, aquela era mais uma terça feira comum, cheia de cirurgias. Isso me dava segurança por um lado, uma vez que aquilo que para mim era novidade, para eles era um hábito, por outro me sentia desamparado, por que o problema era comigo e só comigo. Ninguém ali naquela sala tinha câncer. A vida deles continuava a mesma, cada um com sua rotina, sua liberdade. Me vi num lugar extremamente solitário. A solidão que eu falo aqui não é a de estar sem ninguém por perto, porque na sala que eu estava tinha mais umas 3 ou 4 pessoas. A percepção que eu tive é algo óbvio, mas que não se para pra refletir no cotidiano. O problema de saúde que eu tinha, era no meu corpo. Isso significava que as outras pessoas iriam continuar vivendo a vida delas, com os problemas delas, e eu tinha um problema que era meu, dentro de mim. Era eu que precisava passar pelos penosos tratamentos, cirurgias, procedimentos invasivos. Diante da vida, eu sou um corpo separado dos demais. E neste ponto de individualidade é que eu preciso existir. É somente para mim e por mim que eu preciso manifestar tudo o que existe aqui dentro. E esse movimento é paradoxal, pois quanto mais eu mergulhei na minha solidão existencial, mais eu pude me abrir para a vida e para o outros ao meu redor. Existe uma frase da alquimia que diz: “Só o que está devidamente separado pode ser devidamente unido”. E foi exatamente isso que eu vivi. Precisei me separar e trilhar um caminho escuro e único, que me deu a chance de enxergar quem eu sou.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

3. A dor faz parte da vida

Passar por cirurgias e sessões de quimioterapia me trouxe muito sofrimento. A quimioterapia é um processo infernal, que me deixava beirando a insanidade. É um absurdo como o corpo e a mente sofrem com esse remédio que era a minha salvação. Ainda é difícil lembrar e falar das reações que a quimioterapia deixavam em mim. Quando eu terminei a terceira e última sessão, achava que tudo de ruim que eu deveria passar já tinha acabado, mas foi aí que eu me surpreendi e precisei fazer a segunda cirurgia, que foi um processo muito difícil. Um corte de 26 pontos na barriga, de fora a fora. A recuperação foi lenta, árdua e dolorosa. Com tanto sofrimento físico e desgaste mental, o que eu aprendi é a aceitar que a dor e o incômodo são partes integrantes da vida. Tanto o sofrimento quanto o prazer são passageiros e  passamos a existência toda oscilando entre essas duas faces da vida. Hoje eu me rendo diante do meu próprio sofrimento e tenho respeito pela função sagrada que a dor tem na natureza, tanto a dor física quanto a emocional. Existir é experimentar a dor e aprender a lidar com ela. Não existe fuga, caminho alternativo ou analgésico que resolvam. Com isso descobri que a dor e a tristeza me levam para uma profundidade do meu ser que a alegria e o prazer não são capazes de levar. O sofrimento e a angústia do tratamento me fizeram conhecer o lado mais sombrio da natureza. E foi só depois de olhar este lado escuro que eu pude enxergar melhor o colorido da vida.

domingo, 16 de setembro de 2012

4. O amor é simples

A primeira cirurgia que precisei fazer foi tranquila. Para retirar o testículo afetado, eles fazem um corte na pelve, de cerca de 10cm. A recuperação foi fácil e não me lembro de grandes dificuldades. 26 dias depois de realizada a cirurgia, iniciei a quimioterapia. A quimio com certeza foi a parte mais difícil do meu tratamento. É um processo longo, chato, deprimente, nauseante. A pessoa que mais me ajudou foi minha namorada durante a quimio. A presença dela me acalmava e aliviava o meu sofrimento.Se você observar a natureza, vai ver que os seres vivos são dotados com um sistema autônomo que garante a busca de satisfação de todas as necessidades vitais. Um exemplo que me marcou muito são os macacos, quando começam a sentir que um terremoto vai acontecer se agrupam nas árvores e ficam em silêncio, um perto do outro, esperando a terra tremer. Não tem muito o que fazer, então a última alternativa é ficarem perto um do outro, para diminuir o medo, a sensação de fragilidade e a própria solidão. Durante o tratamento eu estava namorando e ter minha namorada por perto durante os momentos difíceis tornou meu caminho mais leve. Eu precisava de alguém que conseguisse me enxergar e aceitar a situação em que eu estava, sem querer me salvar ou mudar meu estado. Eu ficava extremamente chato, irritado e deprimido nos piores dias da quimioterapia. Só tinha olhos para a morte, o meu amor pela vida sumia completamente. Mas eu sabia que podia contar com ela, que ela estaria do meu lado. Eu não conseguia falar muito, então nós trocávamos olhares e ficávamos de mãos dadas, eu deitado na cama e ela sentada na cadeira ao lado, e ali o nosso amor fluía. Ela não queria arrancar o meu sofrimento, me garantir que eu ficaria bem ou dizer que logo tudo passaria, mas oferecer seu coração, seu olhar para a minha realidade, sua presença e isso era o suficiente. Quando eu precisava chorar, chorava, e ela não tentava me fazer parar, pelo contrário, dizia: “Chora tudo o que você precisar”. Descobri que o amor é algo extremamente simples, amar é a capacidade de estar presente com o coração aberto para outro ser que você vê como especial. Sou um cara muito feliz por ter tido essa mulher especial e amorosa ao meu lado quando eu precisei. Minha jornada teria sido mais difícil e solitária se eu não a tivesse como companheira. Serei para sempre grato.


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sábado, 15 de setembro de 2012

5. Minha vida já valeu a pena

Quando eu estava fazendo quimio, ia frequentemente ao hospital e aos consultórios médicos. Encontrei outras pessoas em tratamento e vi muitos casos de câncer, quase sempre com prognósticos piores e tratamentos mais longos que o meu. Eu pensava na infinidade de doenças e acidentes que podiam me acontecer a qualquer momento, e em como a vida se desfaz em alguns segundos. Então eu refletia sobre a sucessão de eventos que se passou até que eu chegasse vivo onde estou. Por quantas vezes minha vida esteve ameaçada e eu nem soube? De quantos acidentes eu me livrei, talvez por ter saído dois minutos mais cedo de casa, e eu nunca vou saber? Como eu cheguei até aqui vivo? Para fazer quimioterapia, eu entrava na ala da oncologia do hospital, passando em frente a quartos de pessoas que estavam internadas, seja para fazer a quimio, seja por estarem em tratamento paliativo. Eu olhava aquelas pessoas, magras, fracas, com apenas um fio de vida no olhar. Era difícil encarar aquilo. E então eu pensava: “Será que vale a pena mesmo viver? Vale a pena encarar a infinidade de perigos que a vida coloca? A vida não é segura.”. Minha conclusão depois de alguns meses: estar vivo é um milagre. Aos poucos, percebi que eu acreditava em uma série de ilusões, que eu nem sei como e porque aprendi. De onde eu tirei a ideia de que eu era especial e de que a mão do destino jamais seria pesada comigo? Quando me ensinaram que coisas ruins só acontecem com os outros? Felizmente essas ilusões se desfizeram, a cada vez que eu chorava, era um pouco delas que ia embora. É mais leve viver sem elas, hoje eu vejo a vida com um frescor muito diferente. Tudo pode acontecer. O risco é constante e é nesse fluxo que eu existo. Não existe segurança perante a existência. Só me resta me curvar diante do meu próprio destino, mais nada. Existem coisas que são muito maiores do que eu. Com isso eu compreendi que eu já recebi muito da vida. Viver esses 22 anos já fez minha vida valer a pena. Se eu morresse hoje, morreria com o gratidão por ter experimentado um pouco da vida. Essa sensação, de gratidão pela vida que eu recebi é o maior presente que o câncer me deixou. Ter meu coração preenchido de alegria por estar vivo é algo real para mim. Aos poucos, fico cada vez mais longe daqueles dias sombrios, e quando olho para trás, vejo um vale escuro que fez parte da minha viagem. Eu nunca mais serei o mesmo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

6. "Os verdadeiros templos da terra são os hospitais"

Durante os três meses que passei fazendo quimioterapia, o maior medo que tinha era de ter que fazer mais uma cirurgia ao final do tratamento, caso a quimio não desse conta de acabar com os tumores abdominais. Esse medo vinha de um médico estúpido que me atendeu e disse que eu tinha 40% de chances de ficar impotente com essa cirurgia, caso ela fosse necessária. Várias vezes eu sonhei, ou melhor, tive pesadelos com esse médico. Cada vez que eu transava eu pensava: "Será que essa é uma das últimas vezes que eu vou fazer sexo na minha vida?". Era difícil ter prazer nessa situação. Você pode imaginar como é importante a vida sexual para um jovem de 21 anos. Dentro de mim eu tinha bastante certo e decidido que se de fato eu ficasse impotente, eu não queria mais viver não. Fiquei tão abalado com essa comunicação do médico que não queria tocar nesse assunto com ninguém, só de pensar eu já estremecia de medo. Um grande erro meu foi não ter perguntado a outros médicos sobre esse risco, mas meu medo era tanto que eu achava melhor não comentar. Foram 3 meses de expectativa. Foi aí então que ao final da quimio eu fiz o exame para ver se eu precisaria da cirurgia ou não. Feito o exame, minha médica me dá a notícia de que a cirurgia era inevitável. Eu saí do ar e comecei a suar frio. Ouvia a médica falando comigo e minha mãe falando com a médica. Não conseguia focalizar nada. A médica chamou a enfermeira e me colocou numa maca, mediram minha pressão e o batimento cardíaco. A médica queria me internar para tomar calmantes. Aos poucos eu fui voltando. Fui ao banheiro e deixei a água escorrer, molhei a nuca e os pulsos. Pedi que minha mãe e a médica parassem de falar, eu precisava de um pouco de silêncio. Elas pararam por 10 segundos e continuaram depois, uma mais desesperada que a outra. Voltei para a terra. O cenário era desolador. As suspeitas eram de que a quimio não tinha funcionado, e eu teria que fazer a cirurgia e mais quimios, dessa vez mais forte ainda do que as primeiras. Minha médica, vendo meu desespero pela possibilidade de ficar impotente, disse para irmos para São Paulo, consultar com o papa da uro-oncologia, Dr. Miguel Srougi, do Hospital Sírio-Libanês. Ele é médico de estrelas, políticos e milionários. Eu achava que sabia o que era luxo, até entrar no consultório desse cara. Preço da consulta: 700 reais. Cinco secretárias, um médico. Duas horas de atraso na consulta. O médico assistente disse que ele estava atendendo um caso muito grave ao lado, que demoraria um pouco. Esperamos muito e eu já estava com raiva. Pensava comigo: "700 reais e esse cara ainda faz a gente esperar 2 horas? Eu vou falar pra ele que isso não se faz não, que isso é uma falta de respeito. To pagando mesmo, ele vai ouvir.". Finalmente ele chega. Me examina e diz para irmos até a sala dele. Com uma paciência, clareza e educação de dar inveja ele explica todo o meu caso e me indica a cirurgia. Ele termina a exposição dele e eu pergunto: "Certo doutor, é... eu queria saber quais são as chances de eu ficar impotente com essa cirurgia?". Com uma objetividade médica brilhante ele me respondeu, e eu nunca vou esquecer a frase que ele disse: "Impotente? As chances de você ficar impotente com essa cirurgia são as mesmas de que se eu fizer um corte na sua garganta e você ficar impotente.". Expliquei para ele o que aquele médico havia me dito. Ele não deu uma palavra sobre o erro grosseiro daquele outro, apenas me garantiu que não havia essa possibilidade. Era tudo o que precisava ouvir naquele momento. Um peso do tamanho do mundo foi retirado das minhas costas. Além disso, ele me perguntou se eu tinha plano de saúde. Falei que tinha, mas que estava na carência, não cobriria essa cirurgia. Então ele disse que se eu quisesse fazer a cirurgia com ele, eu só precisaria pagar os gastos com o hospital. Que a parte dele não era necessária. Ao sairmos, a secretária disse que a consulta era cortesia. A generosidade do Dr. Srougi livrou meus pais de uma grande dívida. O valor total de toda a equipe médica que fez a cirurgia em mim foi da ordem de 40 mil reais. E essa parte não nos foi cobrada. O que não se paga com dinheiro, se paga com a alma. E eu pagarei buscando um dia ter metade da generosidade desse cara. Depois de alguns meses de operado, mandei uma carta (email) para o Dr. Miguel.


"Os verdadeiros templos na Terra são os hospitais. Aqui você conhece o sofrimento, o valor da existência humana. Os orgulhosos e os soberbos ficam humildes, ricos e pobres são iguais; os ruins, os autoritários e os maldosos se tornam condescendentes: eles ficam despidos, tiram a máscara; é aqui que você conhece o que é viver, que resgata para a vida, não em uma igreja qualquer, que o sujeito entra lá, reza dez minutos e sai. Ele pode até sarar, cicatrizar a sua alma.
Mas aqui nós curamos a alma e o corpo. Esse é o verdadeiro templo, onde o ouro é a vida. Você entende o impacto que a desigualdade social tem sobre o ser humano, a pobreza, a falta de instrução causa doenças."
                                                                                                   Miguel Srougi


Dr. Miguel Srougi,
Olá doutor! Espero que vasculhando sua memória consiga se lembrar de mim! Sou Leonardo, e fui operado pelo senhor e sua equipe no dia 19 de abril desse ano. A cirurgia foi uma linfadenectomia retroperitoneal. Sou de Poços de Caldas – MG, e estudo na USP de Ribeirão Preto. No dia da cirurgia, uma tremenda coincidência aconteceu. A cirurgia anterior à minha foi realizada no Gervázio (próstata inchada). Ele é amigo de longa data de meus pais, no entanto perderam contato há cerca de 20 anos, quando ele se mudou para o Recife. Quis o destino que a gente se encontrasse com ele naquele dia e naquela situação. Lá, ele me convidou para ir passar uns dias na casa de praia dele em Porto de Galinhas. Acabei aceitando e fui agora em Julho, passei uns 10 dias lá, de férias. Estou curado, feliz e saudável. A recuperação da cirurgia foi bastante difícil, mas as lembranças ruins aos poucos vão ficando para trás e vislumbro cada vez mais a vida à minha frente.
Sou muito grato a você e à sua equipe, que me atenderam com rapidez, respeito, esforço e dedicação para que tudo ocorresse da melhor forma. Passei o tratamento da quimioterapia todo torcendo para que eu não precisasse dessa cirurgia, pois um médico muito mal qualificado me disse que eu tinha 40 por cento de chances de ficar impotente com a cirurgia. Quando você me disse que isso era impossível, o meu alívio foi imenso. A sua generosidade foi muito importante para mim e minha família, afinal, nós realmente não tínhamos como lhe pagar. Todas as pessoas que converso sobre você e te conhecem de alguma forma, falam muito bem do senhor. Você faz seu trabalho com muito amor, dedicação, segurança e clareza. O câncer deixa muitas sequelas, e não digo só físicas, mas na alma. Tenho apenas um testículo e acabei ficando infértil. No entanto, hoje minha vida é mais feliz e profunda, pois venci uma escuridão que somente aqueles que passam sabem do que se trata. Você foi um aliado nessa jornada e tornou minha caminhada mais leve. Muito obrigado doutor. Como você mesmo disse, a cicatriz em minha barriga fará eu me lembrar para sempre de você, e a marca no meu coração da sua atitude, generosidade e atenção me tornaram um ser humano melhor. Torço muito para que seu trabalho seja multiplicado neste mundo, por pessoas que aprenderam com você como cuidar de um doente. Segue abaixo uma foto em que estou em Porto de Galinhas, na casa do Gervázio. Agora não mais careca, como você me conheceu. Estou feliz e alegre, e os exames de rotina vão bem. Grande abraço!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

7. Amigos deixam a vida mais leve

Descobri o câncer assim que entrei de férias. Estava longe de todos os meus amigos. Dei a notícia pela internet. Não sei como cada um deles reagiu. Quando terminei a primeira quimio, vim para Ribeirão resolver como ficaria a faculdade nesse tempo de tratamento. Encontrei meus amigos. A maioria deles não soube bem o que me dizer. Se eu tivesse no lugar deles, também não saberia. Eles tem medo de fazer as perguntas erradas. Quando se tem câncer as pessoas acham que se elas falarem uma palavra errada você pode se desmantelar na frente dela. Isso não é verdade. Meus amigos não conseguiram falar direito comigo. Alguns davam mensagens de que estavam torcendo pelo melhor, enquanto outros queriam me convencer de que tudo passaria logo. A verdade é que nessas horas o clima ficava pesado, porque estávamos diante da dor nua e crua. Como encarar seu amigo de 21 anos careca e abatido que está tendo um vislumbre do que é a morte? Ter câncer jovem é mostrar para seus amigos que talvez a morte não esteja tão distante assim.
Chegando em Ribeirão, me deparei uma grande surpresa. Mas antes preciso explicar algo. Esse sou eu e esse é o meu óculos branco. 

Quando cheguei na faculdade esse óculos se tornou a minha marca registrada. Na verdade suspeito de que a maioria das pessoas me achava um pouco ridículo por usar um óculos branco. E acabei tendo a confirmação dessa suspeita quando ganhamos intimidade e começaram a falar na minha cara que de fato, eu era ridículo com o óculos branco. Alguns amigos mais bondosos diziam: “Ah cara, assim, eu não usaria esse óculos, mas é que em você fica bom sabe... ou talvez a gente já tenha se acostumado.”. Bom, essa é a história do óculos. Cheguei em casa, e logo chegaram todos de surpresa, cada um com um óculos branco parecido com o meu. 

Eles tinham feito um vídeo que traçava bons pedaços da nossa vida universitária. Foi emocionante receber esse presente nessa hora em que eu estava tão detonado. Na época eu estava no olho do furacão e não soube dizer nada diante do presente, só falar que estava sem palavras. Sei que todos eles se colocaram um pouco na minha pele com esse gesto de comprar um óculos branco e fazer o vídeo, disseram sem palavras que estavam comigo. Para vocês, tenho um poema:


Pode ser que um dia deixemos de nos falar...

Mas, enquanto houver amizade,

Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

8. Meus pais são seres humanos comuns



Quando penso na minha infância, vejo que ela pode ser considerada muito boa, quando comparada com a média geral da população, no que se refere aos fatores de condições de vida. Nasci numa família de classe média, nunca passei por experiências de privação, estudei sempre nas melhores escolas particulares e não tive tragédias na infância, como perder um pai, presenciar cenas de violência, sofrer algum acidente grave, ser fisicamente abusado ou conviver com alguma doença crônica na família, como o alcoolismo.


No entanto, sofri traumas emocionais que hoje sei que são determinantes para a minha vida e minhas escolhas. Minha infância foi marcada pela sensação de não ser enxergado pelos meus pais. Eles trabalhavam muito, provavelmente tentando ganhar dinheiro para dar uma vida melhor para nossa família, e quando chegavam em casa, estavam cansados. Eles queriam descansar, e eu queria a atenção deles, no entanto, era penoso tentar conseguir essa atenção, porque eles visivelmente não tinham muita energia a oferecer e pareciam sempre estar ocupados com outras coisas que eu pensava que eram mais importantes do que o que eu precisava. A percepção de que eles esqueciam frequentemente da minha presença na casa e na vida deles era comum, e isso se acentuava quando eu assistia brigas entre eles. Engolia o choro e sentia uma dor no peito quando me sentia esquecido. Minha mãe tem um caráter bastante impulsivo e quando ela ficava brava por algum motivo, eu já sabia o bem o que esperar de sua reação. Ela tinha rompantes de ira em que xingava tudo e todos que estivessem em volta. Uma situação simples era um gatilho que estourava o barril de pólvora. Ela gritava muito e seu olhar me dava medo, pois eu não sabia exatamente qual era o seu limite. Para mim era constante o medo de que ela perdesse a cabeça nesses rompantes de raiva, que quase sempre aconteciam durante sua TPM. Meu pai é uma pessoa extremamente paciente. É tolerante e costuma aguentar grandes tormentos calado. Na maioria das vezes em que ele estava presente nos ataques de raiva da minha mãe, ele nada fazia. Olhava como se aquilo fosse comum, como quem espera que um dia isso se resolvesse por si só, o máximo que ouvia ele dizer era chamar minha mãe de “neurótica”. Neurose, uma das palavras que eu mais escuto na minha formação em psicologia. Ele não tinha o mesmo medo que eu, afinal, a minha posição de criança era mais frágil do que a dele de marido. Ele não tinha medo da tirania da minha mãe, por não estar subordinado a ela como eu estava. Um profundo sentimento de culpa me acompanhava, sempre que acontecia alguma dessas situações caóticas na minha família. Eu sempre achei que o desamor que eu presenciava entre meus pais era culpa minha, não me perguntem porque. Hoje sei que aquela sensação de agonia que me dava era culpa, mas na época, era algo que não conseguia nomear. Me doía ver que meus pais não trocavam carinhos, palavras de amor ou atos que estimulassem o amor entre eles. Me doía mais ainda presenciar cenas de ódio e raiva em que um xingava e culpava o outro na frente de todos os filhos, sem cerimônia, como se nós tivéssemos condições de assistir aquilo. Com o passar dos anos, fui me acostumando a essa dinâmica. Dizem que o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível e essa é tanto a sua melhor característica, quanto a pior, porque nós nos adaptamos a tudo, inclusive ao sofrimento, para continuarmos vivos.
Com o tempo a minha reação de defesa a essa dinâmica foi criar a ideia de que não precisava dos meus pais para viver. Eu não poderia contar com eles, não poderia dar trabalho, mostrar minhas fraquezas, pedir algo, nada, afinal eles não viam minhas necessidades, não percebiam como tudo aquilo me afetava. Tudo o que eu tinha que fazer era mostrar a face da perfeição, dar o mínimo de trabalho possível e tentar curá-los de alguma forma. Eu sentia que podia fazer isso, não só que podia, como era meu dever tentar resolver esse problema.
Com tudo o que eu tive que passar durante o tratamento, precisei muito dos meus pais. Para tudo, para ficar comigo no hospital, me ajudar a levantar quando precisava, para ir aos médicos, enfim, eu estava em uma posição em que não era possível abdicar da ajuda deles. Felizmente pude contar com a ajuda de ambos, para várias coisas. Minha mãe ficava mais próxima, por ter mais tempo livre, e esteve comigo nas duas cirurgias. Tanto na quimio quanto na segunda cirurgia, eu xingava bastante a minha mãe. Nos momentos em que eu estava irritado não pensava duas vezes antes de descarregar a minha raiva nela. Ela recebia com simplicidade meus xingamentos e não dava nenhuma resposta que me provocasse. Sempre tentava ver o que era pra ela fazer para eu não ficar irritado. Enquanto a xingava, me sentia vivo e cheio de energia, como se tivesse o direito de ser estúpido e grosso com ela. Esse “troco” que eu dava a ela não foi a solução para a minha dor infantil, mas uma reação de desespero da minha parte.
Meu pai participou mais de longe do tratamento, pela sua própria característica mais distante e por trabalhar na maior parte do tempo. Mas sempre que eu precisava de algo, ir na farmácia, me levar na quimio, ele prontamente fazia, com vontade, sem reclamar nem uma única vez. No entanto meu pai nunca foi alvo das minhas descargas de raiva. Durante o tratamento, meu pai chorou às escondidas pela minha condição. Minha mãe eu sei que perdeu várias noites de sono. Tanto meu pai quanto minha mãe tem dificuldades imensas em lidar com o meu câncer. Eles mal conseguem pronunciar essa palavra. Procuram sempre outros termos, mas quando calham em dizer “câncer”, dizem em um tom mais baixo, como se tivessem medo da palavra. Não os culpo, afinal, meus dois avôs morreram de câncer quando tinham entre 40 e 50 anos.
O tratamento acabou e fui me dando conta de como a minha relação com eles havia sido transformada. Eles me testemunharam no meu momento de maior vulnerabilidade. Aos poucos percebi que eu não tinha e não tenho nada a ver com as brigas que presenciei durante boa parte da minha vida. Hoje, se meus pais quiserem se amar ou se odiar, o problema é deles, porque para mim, eles serão sempre aquele casal que, morrendo de tesão um pelo outro, um dia resolveram se amar, e dessa união, eu vim ao mundo.
Pai, Mãe, tenho muito orgulho de vocês. Vocês já cumpriram a missão de pai e mãe comigo. Já me ensinaram como viver e como não viver. Cuidaram da minha sobrevivência e se esforçaram para que eu tivesse a melhor vida que vocês poderiam dar. É um privilégio ter vocês vivos comigo, e enquanto a vida permitir, isso será muito bom. Levarei para sempre dentro de mim o amor de vocês, e jamais poderei retribuir o que vocês fizeram, apenas me curvar e agradecer. Amo vocês, obrigado.