Hoje faz 11 meses e 8 dias que fui diagnosticado com câncer no testículo. As lembranças ainda são vivas na minha memória: uma angústia profunda me consumia enquanto eu olhava meus exames na sala de espera do consultório do meu urologista. O que o médico iria dizer? Depois de muito esperar, finalmente chegou a hora da minha consulta. Naquele dia, o céu estava nublado e tinha chovido um pouco. Era uma sexta feira cinzenta. Depois de 1 mês e meio com dor no testículo, o médico começou a desconfiar de algo mais sério do que a suspeita inicial de uma simples infecção. Me sentei, entreguei os exames para o médico. Ele perguntou o que eu estava sentindo, olhou meu exames e, com muita calma, me disse que havia conversado com outros médicos de sua equipe, e que o que eu tinha mesmo era um tumor no testículo que precisaria ser operado. Enquanto ele falava, sentia meu ser despedaçado, afundando em um abismo escuro, gelado e solitário. Coloquei a mão na frente do rosto e chorei de desespero. O médico me fitava com um ar de compaixão. Ficou me olhando enquanto eu chorava, e depois contou as boas notícias para mim: “Olha Leonardo, hoje em dia se cura praticamente todos os casos de câncer no testículo, e olha, essa cirurgia não vai trazer nenhum problema na sua vida, porque o outro testículo compensa a falta deste que nós vamos ter que tirar, e daqui a alguns meses a gente coloca uma prótese aí, e não vai dá nem pra perceber qual lado que foi afetado. É fazer essa cirurgia te encaminho pra um oncologista e daqui a um mês deve tá tudo acabado.”. Este cenário foi uma doce ilusão que durou alguns dias da minha vida. Feita a cirurgia, descobriram que além do tumor primário no testículo, eu já estava com três outros tumores abdominais, de 3 centímetros cada. Isso mudava bastante as minhas perspectivas. O tratamento que antes duraria um mês, duraria agora de três a quatro, com a possibilidade da quimio não dar certo. Eu precisava fazer 3 sessões de quimioterapia e refazer exames, para ver se os tumores abdominais haviam sido destruídos. Caso os exames continuassem acusando a presença de tumores, seria necessário uma outra cirurgia, com 40% de chances de ficar sexualmente impotente.
Quando eu recebi o diagnóstico e comecei a maratona de ir em médicos para ouvir opiniões sobre o meu caso, minha vida entrou em suspensão. Minha rotina se alterou e cada dia era um novo passo em uma viagem que eu não queria fazer, mas que era necessária. Minha liberdade de ir e vir foi arrancada de mim, e agora quem ditava o que eu iria fazer ou não eram os médicos. Isso é extremamente frustrante. De repente a minha faculdade, os meu estágios, meus projetos, entraram em segundo plano. As prioridades se inverteram e tudo o que estava ao meu alcance para fazer era esperar e ter paciência. Não tinha com quem brigar ou com quem reclamar, afinal, quem eu culparia? E se eu achasse um culpado, isso mudaria em alguma coisa minha situação? Eu não tinha a menor ideia do que eu iria passar. Uma série de pensamentos invadiam a minha cabeça, mas o que mais me atormentava era que se a quimioterapia não funcionasse eu teria que passar por uma maldita cirurgia que poderia me deixar impotente.
Entendam uma coisa: quando se tem câncer, as fichas vão caindo aos poucos. A primeira cai no dia do diagnóstico, quando se recebe a notícia. Mas a cada evento, cada fase do tratamento, mais fichas vão caindo. No dia da primeira cirurgia, mais uma briga entre a negação e a aceitação da realidade do câncer acontece. Depois, quando se vai para a quimioterapia, é mais um outro processo de aceitação. De repente eu me vi com uma companhia que chegou sem ser convidada e que ficaria para o resto da minha vida presente dentro de mim. E eu ainda me pergunto, será que vai se passar algum dia em que eu não lembre que tive câncer?
Uma questão que se repetiu várias vezes dentro de mim durante todo o percurso do tratamento foi: “Por que comigo?”. Se 1 em cada 270 homens tem esse tipo de câncer, porque comigo? Por que não com o vizinho? Por que não com um amigo distante? Por que dessa vez a coisa ruim era comigo? O que eu fiz para merecer? Uma voz gritava dentro de mim, com muita raiva, e eco desse grito reverberava dentro de mim, encontrando o mais puro silêncio. Eu não tinha resposta. Eu pensava em criminosos, pessoas que deliberadamente fazem algum tipo de mal a outro ser humano, e me perguntava, por que não com ele? Por que não com um maldito político ladrão de Brasília? O que eu fiz de errado para merecer isso? Mas a natureza não tem moralidade de espécie alguma. Ela é indiferente aos meus valores, à minha raiva e ao meu sofrimento. Perante a natureza, eu sou só mais um corpo se mexendo, lutando para sobreviver nesse planeta. A existência não tem nenhum apego à minha vida e nem me considera especial. Algum ponto obscuro em mim acreditava que se eu fosse “bom” nos termos da moral humana, tragédias jamais aconteceriam comigo, só com os outros. Algumas pessoas arriscaram me dar uma resposta de porque eu tive câncer, e aqui vão algumas respostas, que vão desde explicações religiosas até as razões biomédicas. 1) Porque você é uma pessoa muito especial. 2) Deus te deu essa doença porque sabe que você é forte para aguentar. 3) Na verdade você “recebeu” essa doença que era para cair em outra pessoa, mas você é muito bom e resolveu colocar essa cruz sobre os teus ombros, para aliviar um irmão. 4) Porque eu andei muito de bicicleta ao longo de minha vida. 5) Porque eu nasci numa cidade que tem níveis de radiação acima da média. 6) Porque eu fiz um grande mal em uma vida passada e agora resolvi pagar essa dívida com uma doença. 7) Porque eu guardei rancores em relação ao meu pai. 8) Por uma infelicidade do destino. 9) Porque por azar eu sofri uma mutação genética aleatória que gerou o câncer. Estas são só algumas, mas eu poderia listar uma infinidade de explicações sobre o porque eu tive câncer, e eu garanto a vocês, elas não servem para nada, a não ser para me distrair da minha real dor. Uma coisa só tem mais de uma explicação quando nenhuma delas é verdadeira. Nenhuma explicação foi capaz de aplacar a revolta contra a vida que o diagnóstico de câncer suscitou em mim. Não existe explicação, só existe aceitação, porque as coisas são como são, se fossem pra ser diferente, seriam de outro modo. Depois de brigar muito com a vida, minha alma se rendeu e aceitei o câncer como parte de mim. Percebi que eu não tinha outra opção, a não ser me render. O câncer estilhaçou o que a minha mente construiu de ilusório em 21 anos de vida. Minha vida como eu a conhecia estava acabada. Meu coração se acalmou e minha alma se dobrou diante do meu destino que é bem maior do que eu. Eu não tenho domínio total sobre minha vida. Aliás a vida nem é minha, mas a vida vive através de mim. O problema é que enquanto eu brigava com a vida, eu me iludia achando que era onipotente diante da dela. Posso fazer algumas escolhas que influenciarão meu futuro, mas existe um passado infinitamente maior do que eu que me determina e diante dele eu só posso me curvar e aceitar que sou parte desse todo maior. Ainda que ele me traga sofrimentos e desgraças de vez em quando, esse é o mar que eu tenho para nadar.
Cinco dias depois do diagnóstico, eu estava na mesa de cirurgia. Até se chegar ao centro cirúrgico, passei por muitos enfermeiros e cada um deles me perguntava do que eu iria ser operado. “Câncer no testículo”, eu falava. Hoje já me acostumei, mas durante o tratamento, eu me assustava de ver a expressão das pessoas quando ouviam que eu tinha câncer. Câncer é uma palavra mágica, basta abrir a boca para dizer que eu vejo uma expressão de pavor estampada no rosto das pessoas, ao mesmo tempo em que elas tentam esconder esse medo e fingir para você que está tudo bem. A verdade é que para os outros eu havia me tornado “o portador do mal”. A minha doença aborrece vocês. O rosto abatido, a cabeça careca e as cicatrizes espalhadas pelo corpo de alguém que tem câncer mostram uma face dura da vida, que gostaríamos de não ver. Aprendi duras lições sobre a vida e a morte, e agora quero contar para vocês algumas delas.




